Exclusão de idosos na vacinação contra gripe suína gera polêmica
No princípio, a fragilidade da população com mais de 60 anos, estimada em 19 milhões de brasileiros, era um dos temores das autoridades de saúde diante do vírus da gripe suína, que mal se conhecia. Menos de um ano se passou, 1,7 mil pessoas perderam a vida devido à doença no Brasil e o receio de que os idosos se tornassem um grupo de risco parece ter ficado em 2009.
Para a segunda onda de ataque do vírus no país, neste ano, a chamada terceira idade não está entre os grupos candidatos à vacinação e somente idosos com alguma doença crônica vão ser imunizados contra a influenza A (H1N1). Os demais terão de se contentar com a vacina contra a gripe sazonal. “Vamos contar com o bom senso dessa parte da população, pois não será cobrado nenhum atestado”, ressaltou o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, ontem.
A decisão não ficou livre de críticas. “Durante mais de 10 anos essa faixa estária foi prioridade em campanhas de vacinação. Essa decisão é incoerente e um risco à segurança de todos os idosos”, avalia o infectologista e membro da Sociedade Mineira de Infectologia Estevão Urbano.
A tão esperada campanha de vacinação contra a gripe suína começa em 8 de março e termina em 7 de maio. O objetivo é atingir cerca de 62 milhões de brasileiros ou quase um terço da população que, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é de 190 milhões de pessoas.
Para isso, o Ministério da Saúde dividiu a campanha em quatro etapas, vacinando nesse período grupos definidos como prioritários (veja quadro). São eles: jovens entre 20 e 29 anos de idade, crianças de 6 meses a 2 anos, trabalhadores da área da saúde, grupos indígenas, doentes crônicos e gestantes.
A campanha foi divida em quatro etapas e a última foi direcionada a vacinar apenas aqueles com idade acima de 60 anos portadores doenças crônicas. “Os demais idosos contarão com a vacina que protege contra a gripe comum, indo apenas uma vez ao posto”, reforçou o ministro, ressaltando que a campanha contra esse vírus será paralela à do influenza A (H1N1). Ao justificar a decisão, Temporão alegou que as prioridades foramtraçadas com base nos balanços de contaminação e mortes causadas pela doença no ano passado. “A maioria dos infectados era formada por jovens, crianças e gestantes”, disse.
A justificativa não convence o infectologista Estevão Urbano, que discorda da exclusão da população idosa da lista de vacinação. “Não gostaria de vê-los fora dessa campanha, pois eles continuam sendo pacientes imunologicamente debilitados. Em todas as vacinações eles foram prioridade, não entendo essa mudança”, comenta, acrescentando que o vírus é novo e, como tal, difere-se da gripe sazonal. “Há a ideia de que a gripe suína irá substituir a comum, comportando-se com mais agessividade nesse inverno. Se isso ocorrer, a influenza sazonal será minoria. O certo seria a vacinação dessa parte da população contra o H1N1”, diz.
Aos 69 anos, o coordenador do Movimento de Luta Pró-Idoso de Belo Horizonte, Carlos Alberto dos Passos, ficou decepcionado com a decisão do ministério. “É mais uma forma de violência e discriminação contra nós”, critica, comentando que os idosos estarão em risco no inverno. O presidente da Associação dos Cuidadores de Idosos de BH, Jorge Roberto Afonso de Souza Silva, de 26 anos, diz que a prioridade para a vacinação, seja qual for a doença, está prevista no Estatuto dos Idosos. “Como jovem, dispenso a vacina para dar a eles, pois sei que meu corpo responde mais rápido. Eles estão mais suscetíveis a bactérias e vírus.”
Fonte: Jornal Estado de MInas
|